Do místico ao medieval: por que a moda está resgatando o passado para encarar o presente?

Por Maximino Brügger Perez

|

20.02.2026 às 12h09m

Entre rendas vitorianas, armaduras medievais e símbolos místicos, a temporada atual transforma referências históricas em contemporânea — e faz do vestir uma forma de encarar tempos instáveis

 

Há uma razão para o imaginário medieval reaparecer com tanta insistência: ele concentra símbolos e metáforas visuais que têm força até hoje. Em um momento atravessado por instabilidade, a moda recorre a imagens de proteção — armaduras, metais, malhas que evocam escudos — e de devoção e mistério — véus, capuzes, cruzes, rosários. Esses signos levam a uma dramatização da silhueta, que ganha ainda golas altas, mangas amplas, amarrações e saias volumosas.

 

Não se trata de reconstituir uma época, mas de acionar um repertório estético capaz de condensar ideias de poder, corpo, controle e fantasia em uma única imagem. As referências percorrem a Idade Média (entre os séculos V e XV) até o período vitoriano (1837-1901), marcando a transição de um ideal místico para o urbano.

 

Nas passarelas, esse retorno ganhou densidade no inverno 2025, quando a ideia de armaduras, brocados, veludos e volumes estruturados apareceu com força no circuito internacional e invadiu também o estilo das ruas. Mesmo sem a palavra “medieval” declarada como tema central, as coleções trouxeram peças que evocavam couraças, tecidos densos, capuzes e uma ênfase em superfícies que pareciam proteger o corpo.

 

Paralelamente, o vocabulário saltou das passarelas e ganhou tração na cultura pop. O que antes era recurso de desfile passou a aparecer em premiações, pré-estreias e tapetes vermelhos, filtrado pelo olhar de celebridades e stylists que transformam referências históricas em imagens virais.

 

A cantora Chappell Roan, por exemplo, ajudou a trazer o medieval para o centro da pauta recente ao eleger o hennin, aquele chapéu cônico, para um look de red carpet — um gesto que vai além do teatral, e mostra um desejo de subverter os códigos de vestimenta atuais.

Na mesma órbita, Charli XCX reforça a ideia de romance dramático com um vestido volumoso, coberto por tule dourado e babados em um look que evoca a estética barroca para a première do filme O Morro dos Ventos Uivantes.

 

Lady Gaga entra por outro caminho: o da iconografia religiosa como ferramenta de construção de imagem. Em vez do gótico genérico, o que aparece é um catolicismo com toque pop — pense em cruzes, ferragens e uma sensualidade que alterna cobertura e revelação — tudo isso com acabamento de alta-costura e a ajuda de peças de arquivo.

 

Quando Rosalía encosta no mesmo imaginário — véu, branco quase sacro, referências de santidade e êxtase — em sua nova era com o álbum Lux, ela explicita algo importante: o místico hoje não diz respeito apenas a uma estética sombria, é também brilho, pureza, devoção e performance.

 

Também na divulgação de O Morro dos Ventos Uivantes, a protagonista da adaptação, Margot Robbie, tem aparecido com uma série de produções com referências medievais e tempero contemporâneo, como os looks com corset assinados por Dilara Fındıkoglu e os itens John Galliano vintage — escolhas certeiras do stylist Andrew Mukamal.

 

No fundo, o que costura tudo isso é uma mudança de humor: depois de anos em que a ideia de discrição virou sinônimo de elegância, a moda voltou a permitir ornamento, teatralidade e símbolos. O medieval e o vitoriano entregam isso de forma instantânea – e ainda carregam o atrativo de parecerem deslocados do tempo, o que dá a essas referências um tipo de autoridade estética difícil de obter com códigos puramente contemporâneos.