Por que continuamos engordando numa era de canetas milagrosas?
Por Maximino Brügger Perez
21.02.2026 às 15h41m
Vamos falar sobre aquilo que todas nós sabemos, mas ninguém tem coragem de dizer em voz alta?
Você já perdeu os mesmos 10 quilos várias vezes. Conhece cada dieta pelo nome. Sabe de cor quantas calorias tem tudo. É praticamente uma nutricionista autodidata. E ainda assim, o peso volta. Sempre volta. Agora chegaram as canetas emagrecedoras. Ozempic, Wegovy, Saxenda, a salvação finalmente. Sua prima emagreceu. Sua colega não para de falar dos resultados.
E você pensa: “Dessa vez vai ser diferente.” Mas deixa eu te contar algo: a caneta pode até emagrecer seu corpo. Mas ela não vai mudar a razão pela qual você engordou. Estudos mostram que entre 8 e 20 semanas após parar essas medicações, o peso volta. Um estudo com 800 mulheres descobriu que elas recuperaram dois terços do peso perdido em um ano.
A questão é: por que você acha que emagreceu? Você emagreceu porque a caneta bloqueou sua fome. Ponto. Mas o que mudou de verdade dentro de você? Você continua sendo a mesma mulher que abre a geladeira quando está ansiosa. Continua compensando frustração com comida, celebrando conquistas com comida, anestesiando dor com comida.
A única diferença é que agora você tem um remédio fazendo o trabalho que deveria ser feito por você. E quando o remédio acaba? Você já sabe o que acontece.
O problema não é peso, é emoção
Aquela fome das 23h depois de um dia estressante? Não é fome. É ansiedade procurando alívio. Aquele impulso de comer chocolate quando se sente sozinha? Não é fome. É solidão procurando companhia. Aquela compulsão de devorar tudo quando “já comeu besteira mesmo”? Não é fome. É perfeccionismo quebrado procurando punição.
Para você, a comida nunca foi apenas nutrição. É amor que você não recebeu. É raiva que não expressou. É controle quando tudo parece caótico. E sabe qual é a parte mais importante? Isso não é culpa sua. Ninguém te ensinou a sentir raiva sem culpa. Ninguém te ensinou que você pode estar ansiosa e não fazer nada além de respirar e esperar passar.
O que te ensinaram foi: “Está triste? Toma um doce que passa.” Comida virou solução para tudo. O problema é que você usa comida para resolver problemas que a comida não resolve. E a caneta emagrecedora também não resolve.
“Eu não tenho controle.”
“Eu sempre falho.”
“Todo mundo consegue, menos eu.”
Essas crenças foram construídas em cada dieta abandonada. Em cada promessa de segunda quebrada na quarta. Em cada vez que você não gostou do que viu no espelho. E sabe o problema? Elas se tornam profecias autorrealizáveis.
Você acredita que vai falhar, então nem tenta de verdade. E quando o peso volta depois da caneta, essas crenças são reforçadas. “Viu? Eu sabia. Nada funciona comigo.” Mas e se eu te disser que você está apenas usando as ferramentas erradas para resolver o problema certo?
Um estudo da Universidade de Copenhague dividiu mulheres em dois grupos: um só usou medicação, outro combinou com exercícios. Um ano depois de parar a medicação? O grupo que só usou medicação recuperou quase todo o peso. O grupo que fez exercícios manteve a maior parte da perda.
Mas não é só sobre exercício. É sobre mudança real de estilo de vida. Criação de novos hábitos. Construção de nova identidade. Aquelas mulheres haviam mudado por dentro.
A transformação que faz diferença
Se você está usando canetas, use com suporte médico. Mas não ache que a química vai resolver o que só a regulação emocional resolve. Comida não é amor. Não é recompensa. Não é punição. Não é solução para problema emocional.
Comida é comida. Nutrição. Prazer consciente quando você tem fome de verdade. Quando você internaliza isso de verdade, tudo muda. Sabe a diferença entre mulheres que mantêm o peso e mulheres no efeito sanfona?
Não é genética. Não é metabolismo. Não é sorte. É a transformação interna.
As mulheres que mantêm o peso fizeram trabalho profundo de:
• Reconhecer e processar emoções sem usar comida
• Desconstruir crenças limitantes
• Desenvolver compaixão própria ao invés de autocrítica
• Ressignificar o papel da comida
Isso não acontece com injeção semanal. Acontece com trabalho consciente, consistente e, às vezes, doloroso. Segredo: você não precisa ser perfeita. Não precisa nunca mais comer por emoção.
Você só precisa ser melhor do que era ontem. Reconhecer quando está comendo por emoção e, ao invés de se punir, perguntar: “O que está acontecendo comigo agora?”
O processo não é linear. Você vai ter dias incríveis. E dias em que desaba. Ambos são válidos.
A diferença é que agora você está consciente. Não está no piloto automático. Está aprendendo, processando, evoluindo. Você não precisa de mais uma dieta. Você não precisa de mais uma promessa milagrosa. Você precisa de transformação. O problema nunca foi você. Nunca foi falta de força de vontade. Nunca foi preguiça. A caneta pode emagrecer o corpo. Mas só você pode alimentar a alma. E quando você alimenta a alma, o corpo segue.
* Emi Moraes é psicoterapeuta, especialista em emagrecimento comportamental e criadora do método “Emagreça de Dentro pra Fora”. Perdeu 40kg e mantém o peso há anos através das técnicas que ensina. Sua missão é ajudar mulheres a se libertarem do ciclo de dietas.
Instagram: @euemi_moraes
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