Quando o corpo vira mercado: a ascensão das canetas emagrecedoras

Por Maximino Brügger Perez

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02.03.2026 às 16h38m

Nos últimos meses, as popularmente chamadas canetas emagrecedoras ganharam espaço na mídia e nas redes sociais, tornando-se símbolo de uma nova forma de relacionamento das pessoas com o próprio corpo.

 

O uso crescente desses medicamentos — especialmente a semaglutida e mais recentemente a tirzepatida — reacendeu discussões sobre a influência do mercado de saúde e beleza na construção de padrões e expectativas sociais. Dados da IQVIA mostram que, entre 2023 e 2025, a procura por esses remédios no Brasil aumentou mais de 200%, revelando que o fenômeno ultrapassa a esfera médica e já atinge a cultura e o comportamento da população.

 

Embora esses medicamentos representem um avanço significativo no manejo da obesidade, é evidente que seu uso já ultrapassa, em muitos casos, o propósito estritamente médico. Em um país onde mais da metade dos cidadãos apresenta excesso de peso, segundo dados recentes do Ministério da Saúde, substâncias que diminuem o apetite acabam sendo vistas como uma espécie de solução rápida para um problema que é profundamente multifatorial. O perigo, nesse cenário, é transformar um recurso terapêutico em um item de consumo comum — influenciado por apelos estéticos, estratégias de marketing e narrativas de mudança imediata.

 

A popularização das chamadas canetas emagrecedoras também escancara desigualdades já conhecidas. Enquanto uma boa parte da população esbarra na falta de acesso a serviços básicos de saúde, outra parcela consegue dispor de parte considerável da renda a tratamentos farmacológicos de preço elevado. O corpo, nesse processo, volta a ser tratado como um bem a ser moldado, corrigido e mantido conforme expectativas sociais. Assim, a ideia de saúde acaba sendo substituída por uma busca incansável pela aparência perfeita, o que cria ilusões, pressões e até uma dependência emocional desses medicamentos.

 

Para pessoas que convivem com obesidade grave, esses novos tratamentos podem representar uma transformação significativa na saúde e no bem‑estar. No entanto, quando estes tratamentos passam a ser utilizados como atalhos para a perda de peso rápida, sem orientação do prescritor ou do farmacêutico, deixam de cumprir seu papel clínico e passam a ser tratados quase como produtos estéticos — que não são e, como tal, devem ser usados somente com acompanhamento.

 

Diante desse cenário moderno e preocupante, é imprescindível ampliar a discussão. A saúde não pode ser reduzida a um número na balança ou à rapidez nas mudanças aparentes do corpo. Uma abordagem mais abrangente, que considere alterações nos hábitos de vida, nas condições alimentares e nas atividades físicas se faz fundamental para a volta da estética consciente.

 

Se o corpo passou a ser encarado como um objeto de consumo, talvez a questão mais urgente seja: como recolocar a saúde no centro da conversa em meio a tantas promessas de resultados imediatos?

 

*Trajano Felipe Barrabas Xavier da Silva é Farmacêutico com graduação em Design de Produ