Volta às aulas expõe falha estrutural: escolas ainda não estão prontas para crianças autistas

Por Maximino Brügger Perez

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10.02.2026 às 16h34m

Com o crescimento contínuo de alunos autistas na rede regular, fevereiro escancara um problema que já não é exceção: falta preparo, apoio e articulação entre escola, saúde e família — e o impacto recai diretamente sobre a autoestima e a saúde emocional das crianças. Fevereiro não marca apenas o retorno às salas de aula. Para milhares de famílias brasileiras, especialmente as famílias atípicas, o início do ano letivo representa um momento crítico de reorganização emocional, pedagógica e institucional.

 

O que há pouco mais de uma década era tratado como exceção hoje é realidade cotidiana: crianças autistas estão presentes em praticamente todas as escolas regulares do país. Em muitas salas de aula, já são três ou quatro alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) dividindo o mesmo espaço, exigindo adaptações pedagógicas, sensibilidade institucional e preparo técnico — algo que ainda não acompanha o crescimento dessa população. Um contingente invisibilizado.

 

Dados atualizados do CDC (Centers for Disease Control and Prevention) indicam que uma em cada 31 crianças está no espectro autista

 

No Brasil, o IBGE estima cerca de 2,4 milhões de pessoas autistas, o equivalente a 1,2% da população. Os números ajudam a dimensionar o impacto real da volta às aulas: não se trata de poucas crianças retornando à escola, mas de um contingente expressivo que desafia o sistema educacional todos os anos. Ainda assim, muitas escolas iniciam o ano letivo sem planejamento específico, sem formação adequada para professores e com estruturas que transferem para a família — especialmente para as mães — a responsabilidade pela inclusão.

 

Sarita e sua filha Elisa de 7 anos autista não verbal

Quando a escola não acolhe, a dor aparece

 

Para Sarita Melo, mãe de Elisa, de 7 anos, autista não verbal, a volta às aulas sempre foi marcada pela insegurança. A filha já foi rejeitada por três escolas, não por incapacidade de aprender, mas pela falta de preparo institucional. “A exclusão não acontece só quando a matrícula é negada. Ela acontece quando a criança está na sala, mas não é compreendida”, afirma.

 

Segundo Sarita, a ausência de adaptações e de apoio adequado transforma o ambiente escolar em um espaço de sofrimento. “Não é apenas sobre conteúdo. É sobre sobreviver ao dia sem adoecer emocionalmente”, diz.

 

Idealizadora da Jornada do TEA, Sarita destaca que a falta de articulação entre escola, família e saúde faz com que a inclusão ainda dependa quase exclusivamente das mães.

 

Quando a dificuldade escolar vira ferida emocional

 

Para a pedagoga e psicopedagoga Talita Pazeto (na foto de capa), mestre e doutora em distúrbios do desenvolvimento e mãe atípica, as dificuldades de aprendizagem não tratadas precocemente não afetam apenas o desempenho acadêmico. Elas atingem diretamente a autoestima, a socialização e a saúde emocional da criança.

 

“Para uma criança, errar repetidamente, não acompanhar a turma ou ser comparada o tempo todo gera uma ferida emocional profunda. O desempenho escolar está diretamente ligado à construção da autoestima”, explica.

 

Segundo a especialista, ainda é comum que famílias busquem ajuda apenas no final do ano letivo, quando o cansaço se acumulou, as notas já estão comprometidas e o impacto emocional já está instalado.

 

“Nesse cenário, muitas intervenções chegam tarde demais para recuperar conteúdos — e tarde também para proteger a autoconfiança da criança”, pontua.

 

Quando o diagnóstico é realizado no início do ano, as dificuldades identificadas e as intervenções começam de forma estruturada, o cenário muda. Com acompanhamento adequado, orientações claras à escola e estratégias individualizadas, os prejuízos acadêmicos são reduzidos e, principalmente, evita-se que a criança associe aprender a fracassar.

 

A autoestima também se constrói na sala de aula

 

O prejuízo escolar contínuo mina a autoestima infantil de forma silenciosa. A criança passa a se perceber como “menos capaz”, evita desafios, se retrai socialmente e, muitas vezes, desenvolve ansiedade, desmotivação e sofrimento emocional.

 

O impacto não fica restrito à sala de aula. Ele se estende para o comportamento, para as relações sociais e para a forma como a criança se enxerga no mundo.

 

Débora Saueressig- jornalista, autista e mãe atípica do Benjamim de 7 anos

Para a jornalista Débora Saueressig, mãe de um menino de sete anos, autista e estudante da educação fundamental, minimizar a importância da autoestima em nome do formalismo acadêmico é perpetuar a exclusão.

 

“Ignorar o desenvolvimento emocional da criança ou tratá-lo como secundário é naturalizar a exclusão dentro da escola. Não existe aprendizagem possível quando a criança é constantemente colocada em posição de fracasso”, afirma.

 

AEE é direito, não concessão — e a conta recai sobre a família

 

De acordo com Talita Pazeto, um dos principais gargalos da inclusão escolar no Brasil está no descumprimento de uma obrigação legal básica: a oferta do Atendimento Educacional Especializado (AEE).

 

Ela lembra que o Decreto nº 12.686 determina que o AEE deve ser ofertado pelas próprias escolas, públicas e privadas, sendo a realização em centros externos uma possibilidade excepcional, e não regra.

 

“O AEE não é opcional e não pode ser tratado como um favor da escola. A legislação é clara ao afirmar que o Atendimento Educacional Especializado deve acontecer dentro da instituição de ensino e deve integrar o Projeto Político Pedagógico da instituição. Quando a escola apenas encaminha o aluno para fora, sem ofertar o serviço internamente, isso não é inclusão — é descumprimento de um direito garantido”, pontua.

 

Na prática, porém, a ausência desse suporte acaba recaindo sobre as famílias, especialmente aquelas em contextos de maior vulnerabilidade social.

 

Kátia e o marido com o filho Lael, autista de 8 anos

É o que relata Katia Kintino, mãe de Lael, de 8 anos, autista nível 3 de suporte e não verbal. Mulher preta e periférica, professora da Educação Infantil e de Educação Física, com pós-graduação em Educação Especial e Inclusiva e em Autismo, Katia afirma que a volta às aulas expõe um padrão recorrente.

 

“Na prática, a inclusão ainda depende da família. Muitas escolas não têm AEE estruturado, mediadores ou plano pedagógico adaptado. O que deveria ser responsabilidade institucional acaba sendo empurrado para os pais. Eu já precisei dar entrada na defensoria pública e no ministério público para garantir o básico para o Lael.”, diz.

 

Segundo ela, a falta de preparo impacta diretamente o bem-estar das crianças. “Quando a escola não está preparada, o ambiente deixa de ser um espaço de aprendizagem e passa a ser um lugar de sofrimento. Isso afeta a autoestima da criança e aprofunda desigualdades, principalmente para famílias periféricas”, afirma.

 

Talita reforça que a ausência do AEE compromete não apenas o desempenho escolar, mas todo o desenvolvimento da criança. “Não existe inclusão possível sem AEE efetivo. E não existe respaldo legal para a omissão disfarçada de encaminhamento. Quando esse serviço não é oferecido, quem paga o preço é a criança”, conclui.

 

Um debate que precisa sair do privado

 

A volta às aulas não é apenas um evento escolar. É uma questão de saúde pública, educação e desenvolvimento social. Ignorar essa realidade significa perpetuar um ciclo de frustrações que se repete ano após ano para milhares de crianças e famílias.

 

A orientação dos especialistas é clara: se a criança apresenta dificuldades na leitura, escrita, atenção, comportamento ou organização, buscar ajuda no início do ano pode evitar um ciclo de fracassos silenciosos.

 

No fim das contas, garantir aprendizado é importante. Mas garantir a autoestima é essencial e começa com diagnóstico, apoio estruturado e escolas preparadas para uma realidade que já chegou.

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