Ter dinheiro basta para ter uma vida próspera?
Por Maximino Brügger Perez
20.09.2026 às 15h21m
Pesquisas mostram que segurança financeira pesa na percepção de sucesso, mas saúde, relações e bem- estar também determinam como os brasileiros avaliam a própria felicidade
Abundância e dinheiro estão diretamente relacionados, mas não significam a mesma coisa. Enquanto 67% dos brasileiros consideram ter uma casa própria um sinal de sucesso e 66% associam a realização a um emprego estável, fatores como sentir-se amado, preservar a saúde física e mental e manter boas relações familiares aparecem à frente das finanças quando a pergunta é o que produz felicidade. Os dados são de duas pesquisas da Ipsos divulgadas em 2026 e ajudam a ampliar a discussão sobre o que caracteriza uma vida próspera.
Para Elainne Ourives, psicanalista, pesquisadora e treinadora mental com atuação em comportamento humano, reprogramação mental e relação com o dinheiro, a abundância começa a ser mal interpretada quando o patrimônio se transforma na única medida de sucesso. A especialista levará essa discussão ao Cocriador Milionário, encontro que acontece nos dias 11, 12 e 13 de setembro, em São Paulo.
“Dinheiro importa. Ele proporciona segurança, escolhas e conforto. Mas abundância não pode ser reduzida ao saldo de uma conta. Uma pessoa pode conquistar muito financeiramente e continuar percebendo falta de tempo, de relações saudáveis, de tranquilidade ou de sentido naquilo que construiu”, afirma.
A discussão ganha força em um momento no qual a segurança econômica ocupa posição central na definição de sucesso. A pesquisa Life Aspirations 2026, realizada pela Ipsos com mais de 22 mil pessoas em 30 países, apontou que casa própria e estabilidade profissional estão entre as principais aspirações dos brasileiros.
Abundância não significa ignorar o peso do dinheiro
A importância da segurança financeira também aparece nos indicadores de crédito. Em julho, a inadimplência nas operações com recursos livres chegou a 6,4% no Brasil, ante 6% em junho, maior nível da série histórica iniciada pelo Banco Central em 2011, segundo dados publicados pela Forbes com informações da Reuters.
No mesmo período, os juros cobrados pelas instituições financeiras nessas operações ficaram em 47,7% ao ano. Para a psicanalista, os números impedem uma leitura simplista de que recursos financeiros seriam secundários para o bem estar.
“Não podemos romantizar a falta de dinheiro. Quando alguém não consegue pagar suas contas ou construir uma reserva, existe uma preocupação concreta. O ponto é que alcançar estabilidade financeira resolve uma dimensão importante da vida, mas não necessariamente organiza todas as demais”, explica.
É justamente essa diferença que aparece no Ipsos Happiness Report 2026. No Brasil, 54% dos entrevistados apontaram a situação financeira como um dos principais motivos de infelicidade. Saúde mental e bem estar foram citados por 37%.
Quando a pergunta foi sobre o que contribui para a felicidade, porém, sentir se amado liderou as respostas, com 34%, seguido de saúde física e mental, com 31,4%, e relacionamento com a família e os filhos, com 29,4%. Ao todo, 80% dos brasileiros ouvidos afirmaram estar felizes.
Quando ter mais nunca parece suficiente
Para a pesquisadora, uma das questões centrais na relação entre dinheiro e abundância aparece quando a conquista deixa de gerar satisfação e se transforma imediatamente em uma nova cobrança.
A pessoa melhora de renda, alcança uma posição profissional desejada ou acumula patrimônio, mas desloca rapidamente a atenção para o próximo objetivo.
“Buscar crescimento é saudável. O problema aparece quando nenhuma conquista consegue ser reconhecida porque a referência está sempre no próximo resultado. A abundância também passa pela capacidade de perceber o que já foi construído e usufruir disso”, afirma.
A comparação permanente pode ampliar essa sensação. Renda, imóveis, cargos e viagens são elementos visíveis e mensuráveis. Relações pessoais, autonomia sobre o próprio tempo, equilíbrio emocional e satisfação com a rotina são mais subjetivos.
Dinheiro amplia escolhas, mas não define quais escolhas fazer
Os dados da Ipsos mostram essa convivência entre necessidades materiais e subjetivas. A segurança financeira aparece como condição importante para a percepção de sucesso e sua ausência está fortemente associada à infelicidade. Ao mesmo tempo, vínculos pessoais e saúde ocupam posições centrais quando os brasileiros explicam por que se consideram felizes.
Para Elainne, esse é o ponto que diferencia riqueza financeira de abundância. “Dinheiro amplia possibilidades. Ele pode comprar conforto, permitir experiências, proteger diante de imprevistos e dar mais autonomia. Mas não decide sozinho se aquela vida é satisfatória. Abundância é conseguir construir recursos sem transformar a vida inteira em uma perseguição permanente ao próximo número”, diz.
Prosperidade também é conseguir usufruir
Para a psicanalista, ampliar o significado de prosperidade não significa diminuir a importância de ganhar dinheiro ou construir patrimônio. Significa também considerar tempo, liberdade de escolha, relações, saúde emocional e capacidade de desfrutar das próprias conquistas. “Uma vida abundante não exige escolher entre dinheiro e felicidade. A questão é fazer o dinheiro ocupar o lugar que ele pode ocupar, como recurso para ampliar possibilidades, e não como única identidade de sucesso. Prosperidade financeira é importante. Conseguir viver aquilo que foi conquistado também”, conclui Elainne.
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