Comportamento

Casamentos em jardins impulsionam celebrações mais intimistas e personalizadas no Brasil

Embora maio seja tradicionalmente conhecido como o mês das noivas, o mercado de casamentos tem acompanhado transformações importantes no perfil das celebrações

 

Nos últimos anos, cerimônias realizadas em jardins e espaços ao ar livre passaram a ganhar protagonismo ao refletirem uma demanda crescente por experiências mais intimistas, afetivas e conectadas à natureza.

 

A associação de maio aos casamentos tem origem em tradições europeias ligadas à chegada da primavera e foi consolidada ao longo do tempo por fatores culturais e religiosos. No Brasil, apesar de outras épocas do ano concentrarem maior volume de cerimônias, o período continua sendo uma referência simbólica para o setor e costuma impulsionar discussões sobre tendências e comportamento no universo dos eventos sociais.

 

Nesse contexto, os casamentos em jardins vêm se destacando por oferecer uma proposta que combina ambientação natural, experiências sensoriais e maior proximidade entre os convidados. O formato acompanha uma mudança no comportamento dos casais, que têm priorizado celebrações mais personalizadas, menos protocolares e centradas na experiência compartilhada.

 

Segundo Mariana Medeiros, chef de cozinha e sócia do Espaço Hibisco, a escolha pelo ambiente externo contribui diretamente para a construção emocional da cerimônia. “A hora do ‘sim’ ganha novas camadas de significado, principalmente quando associada a um cenário que envolve atmosfera, aromas e sensações que remetem a uma experiência mais afetiva e personalizada”, afirma.

Além do impacto visual, os espaços ao ar livre também influenciam aspectos estéticos e operacionais das celebrações. Elementos como iluminação natural, paisagismo e integração com o ambiente têm permitido a construção de propostas que equilibram referências clássicas e contemporâneas.

“A luz natural e o paisagismo criam uma atmosfera mais acolhedora e possibilitam diferentes composições estéticas. Isso permite unir o tradicional e o contemporâneo de forma harmônica, tornando a experiência ainda mais significativa para os convidados”, destaca Mariana.

A tendência também se reflete na gastronomia dos eventos. De acordo com a especialista, o conceito do casamento influencia diretamente a definição dos cardápios, priorizando apresentações mais leves, delicadas e alinhadas à proposta da cerimônia.

“Hoje, a experiência gastronômica faz parte da narrativa do evento. Cardápios mais leves, apresentações cuidadosas e combinações que dialogam com o ambiente ajudam a construir uma memória afetiva mais completa para os convidados”, completa.

O crescimento desse modelo reforça uma transformação mais ampla no setor de eventos sociais, marcado pela busca por celebrações autorais, experiências sensoriais e ambientes capazes de traduzir a identidade dos casais de forma mais próxima e personalizada.

Comportamento

“Os pais nem imaginam”: Discord, Reddit e os perigos ocultos que atraem crianças na internet

Segundo dados da UNICEF, cerca de 1 em cada 5 crianças e adolescentes brasileiros entre 12 e 17 anos sofreu algum tipo de violência sexual facilitada pela tecnologia em apenas um ano

 

Isso representa aproximadamente 3 milhões de jovens expostos a aliciamento, chantagem, coerção para envio de imagens íntimas ou circulação de conteúdo sexual sem consentimento. Houve um tempo em que os pais temiam a rua.

 

A bicicleta sem freio, o tombo no meio-fio, o joelho ralado, a bola que atravessava a avenida, o estranho parado na esquina. A infância tinha poeira nos pés, suor no cabelo e uma liberdade vigiada pelo grito da mãe no portão. Hoje, o perigo não precisa mais estar na rua. Ele entra pelo Wi-Fi.

 

A criança permanece no quarto, sentada no sofá, dentro de casa, às vezes ao lado dos próprios pais. Mas, pela tela, atravessa portas que nenhum adulto abriu, entra em comunidades que a família desconhece e assiste a cenas que antes pertenciam aos porões mais escuros da vida adulta. Enquanto a infância parece protegida entre quatro paredes, muitos meninos e meninas estão sendo apresentados a uma violência que chega sem bater, sem fazer barulho e sem deixar marcas visíveis no corpo.

 

É nesse cenário que plataformas mais fechadas, como Reddit e Discord, passaram a preocupar autoridades, pesquisadores e investigadores. Diferentemente das redes sociais tradicionais, esses ambientes funcionam em fóruns anônimos, servidores privados e comunidades de difícil monitoramento. Muitos pais sequer sabem como funcionam. Outros nunca ouviram falar. O palco perfeito para a violência extrema sem monitoramento e, pior, sem ninguém para responsabilizar, totalmente anônima. Os pais nem imaginam, mas seus filhos já estão lá.

 

Em 2026, um relatório do Núcleo de Observação Digital da Polícia Civil de São Paulo revelou o monitoramento de mais de 1,2 mil alvos ligados a crimes digitais envolvendo crianças e adolescentes. As investigações apontam circulação de pornografia extrema, automutilação, incentivo ao suicídio, violência sexual, humilhações coletivas e transmissões violentas em tempo real. Aproximadamente 359 crianças e adolescentes precisaram ser resgatados de situações classificadas como risco iminente.

 

O problema é que a violência digital não chega mais como exceção. Ela aparece diluída e compartilhada como entretenimento. Um vídeo de humor leva a outro. Um meme leva a um fórum. Um link leva a um servidor privado. E, quando os adultos percebem, a infância já foi atravessada por imagens, linguagens e estímulos que o cérebro infantil ainda não possui maturidade emocional para compreender. E posso afirmar com convicção, muitos adultos também não teriam estômago para encarar o conteúdo desses canais, eu não tive.

 

Mas o cérebro humano não diferencia completamente aquilo que é vivido daquilo que é assistido repetidamente. A neurociência já demonstrou que exposição contínua à violência altera circuitos ligados à empatia, regulação emocional e percepção de ameaça, especialmente durante a infância e adolescência, períodos em que o cérebro ainda está em intensa reorganização neural.

 

Estamos falando de crianças crescendo em contato diário com conteúdos que nenhuma geração anterior teve acesso tão cedo. O que antes era impensável para uma criança tornou-se rotina: assistir agressões; acompanhar humilhações públicas; consumir pornografia violenta; ver desafios autodestrutivos; presenciar estupros transformados em espetáculo digital. E talvez exista algo ainda mais grave acontecendo: isso tudo está sendo normalizado.

 

A infância brasileira está crescendo em um ambiente onde a violência deixou de interromper o entretenimento para se tornar parte dele. O abominável virou resultado do algoritmo para retenção de atenção. E plataformas digitais descobriram que medo, erotização e violência mantêm usuários conectados por mais tempo. A discussão vai muito além de apenas “tempo de tela”, ela ficou pequena demais diante da dimensão do problema.

 

*Sheron Mendes é Bióloga, especialista em Neurociência do Comportamento e professora dos cursos de pós-graduação em Educação na UNINTER.

 

Comportamento

Celular na adolescência: mediação ativa e ‘detox’ são as estratégias reais de proteção

Especialista da UniCesumar defende a presença dos responsáveis no ambiente virtual e pondera que uso diário do aparelho; proibição agrava os riscos

 

Pesquisas recentes apontam que o aumento intenso do uso de celulares entre os jovens está diretamente ligado à queda no desempenho escolar e ao crescimento de relatos de solidão. No Brasil, o acesso também é massivo: de acordo com o estudo TIC Kids Online 2025, a internet faz parte da rotina de 92% da população de 9 a 17 anos. Diante da exposição diária e, muitas vezes, sem filtros, adolescentes ficam vulneráveis a abusos, pressões digitais e danos diretos à formação da identidade.

 

“Proibir totalmente o uso de telas atualmente é quase impossível, porque a vida gira em torno da internet, que é uma infraestrutura essencial para educação e socialização. Quando os pais tentam proibir o acesso, a relação se desgasta. Os adolescentes começam a esconder o que estão fazendo, tentam recuperar a conexão a qualquer custo e passam a usar a rede em locais sem nenhuma supervisão”, afirma Leonardo Pestillo de Oliveira, doutor em Psicologia e professor Programa de Pós-Graduação em Promoção da Saúde da UniCesumar de Maringá (PR).

 

O cenário impõe um desafio prático para as famílias e a resposta imediata de muitos responsáveis é o bloqueio do acesso, estratégia que os dados e a análise comportamental demonstram ser obsoleta. Em vez de simplesmente retirar o aparelho da mão dos adolescentes, a abordagem correta exige estabelecer estratégias reais para dosar o uso e garantir a segurança.

 

Os desafios das redes sociais

 

Oliveira explica que a superexposição em redes sociais afeta de forma mensurável a saúde mental e as plataformas são desenvolvidas para fornecer recompensas neurológicas imprevisíveis, operando em um cérebro adolescente que ainda não possui maturidade plena para controlar impulsos. “Os adolescentes estão expostos a conteúdos irrealistas que afetam diretamente a identidade e a autoestima. Com a exposição constante, a ausência de validação imediata, como curtidas e comentários, passa a ser interpretada como uma rejeição social”, complementa o docente.

 

Esse ambiente também abre portas para riscos práticos de segurança, como o cyberbullying e o aliciamento digital, nos quais adultos se aproximam de jovens para fins de exploração. O compartilhamento impulsivo de conteúdos aumenta o risco de chantagens e vazamentos de imagens íntimas.

 

Estratégias aplicáveis: detox digital e presença virtual

 

A proteção da nova geração requer que os responsáveis estejam tão presentes no mundo virtual quanto no físico. Isso não significa vigilância hostil, mas a implementação de ferramentas de controle aliadas ao diálogo. Estratégias como limites de tempo de uso e filtros de classificação etária devem compor a rotina familiar. “Essas ferramentas são um suporte importante na mediação. O objetivo não é exatamente monitorar 100% do tempo, mas preparar os adolescentes para uma capacidade de autorregulação e maturidade no ambiente digital. É preciso ter transparência sobre o uso dessas tecnologias”, orienta o psicólogo.

 

O “detox digital” programado também surge como ação corretiva para a dinâmica familiar. O afastamento pontual e planejado das telas reduz a hiperestimulação. “As pausas devem ser implementadas não como uma punição, mas como uma estratégia de saúde. Esse tipo de situação ajuda na recuperação da atenção e melhora a saúde mental, pois reduz os sintomas de ansiedade frente à necessidade constante de checar as telas. É importante que todos se permitam reconectar pessoalmente e melhorar a percepção sobre o mundo real”, acrescenta.

 

Construção de confiança: mediação ativa

 

A base para a eficácia dessas medidas é a construção de confiança. A mudança passa pela estruturação de uma rotina de mediação ativa. “Os pais devem participar desse momento, perguntar como os filhos jogam e como se comunicam, aprendendo sobre o universo deles. É preciso ensinar sobre os conteúdos consumidos e explicar os riscos reais. A manutenção de uma comunicação positiva e constante sempre é mais eficiente do que punições imediatas tomadas no calor de uma discussão”, conclui o professor da UniCesumar.

 

Sobre a UniCesumar

 

Com 35 anos no mercado educacional e desde 2022 como uma das marcas integradas ao grupo Vitru Educação, a UniCesumar conta com uma comunidade de mais de 500 mil alunos. Atualmente, possui uma robusta estrutura de Educação a Distância (EAD), com mais de 1,3 mil polos espalhados por todas as regiões do país, além de três unidades internacionais, localizadas em Dubai (Emirados Árabes) e Genebra (Suíça). No ensino presencial, destaca-se o curso de Medicina, oferecido nos campi de Maringá (PR) e Corumbá (MS), juntamente a outros três campi, localizados em Curitiba, Londrina e Ponta Grossa (PR). Como um dos dez maiores grupos educacionais privados do Brasil, a UniCesumar oferece portfólio diversificado, com mais de 350 cursos, abrangendo graduação, pós-graduação, técnicos, profissionalizantes, mestrado e doutorado. Sua missão é promover o acesso à educação de qualidade e contribuir para o desenvolvimento pessoal e profissional de seus alunos, preparando-os para os desafios do mercado de trabalho.

 

Comportamento

Crianças que fazem refeições em família têm hábitos mais saudáveis e melhor saúde emocional

Estudos internacionais mostram o impacto do ambiente familiar na relação dos pequenos com a comida, a saúde e o comportamento

 

Em meio a agendas corridas, telas à mesa e refeições cada vez mais individualizadas, especialistas alertam para a importância de resgatar momentos de alimentação em família. Segundo as diretrizes da Organização Mundial da Saúde, o ambiente familiar é determinante na formação dos hábitos alimentares, influenciando a saúde metabólica, emocional e comportamental ao longo da vida.

 

Além disso, estudos internacionais, como o divulgado no início do ano pela Universidade de Cambridge, mostram ainda que crianças que participam regularmente de refeições em família têm melhor qualidade alimentar, com maior consumo de frutas, vegetais e nutrientes essenciais, além de menor risco de sobrepeso “crianças aprendem muito mais pelo exemplo do que pelo discurso. A forma como os adultos se relacionam com os alimentos influencia diretamente o comportamento alimentar dos pequenos”, afirma Gisele Pavin, head de Nutrição, Saúde e Bem-Estar da Nestlé Brasil.

 

Apesar dos benefícios, esses momentos têm se tornado menos frequentes, especialmente em contextos urbanos. Nesse sentido, uma pesquisa da Columbia University (CASA) aponta que adolescentes que jantam com a família 5 vezes ou mais por semana têm menos chances de ter dificuldades acadêmicas, e menor risco de depressão e isolamento social.

 

Entre as atitudes que podem ajudar no dia a dia estão:

 

  • • Realizar refeições em família sempre que possível
    • Dar o exemplo, incluindo variedade no prato
    • Envolver as crianças no preparo dos alimentos
    • Incentivar a experimentação de novos sabores

 

“Mais do que impor regras, o importante é criar um ambiente positivo e de troca. A relação com a comida começa na infância e tende a acompanhar a pessoa por toda a vida”, aponta Pavin. Além dos impactos na alimentação, esses momentos também fortalecem vínculos e contribuem para o desenvolvimento emocional das crianças, um fator cada vez mais relevante em um cenário de rotinas aceleradas.

 

Olhando para a importância de práticas saudáveis na infância, a Nestlé promove a iniciativa Nestlé por Crianças Mais Saudáveis, que incentiva uma alimentação e hábitos equilibrados e apoia pais e cuidadores na construção de rotinas mais saudáveis para as famílias. Nos últimos anos, a iniciativa esteve presente em escolas públicas de todo o Brasil com ações que engajaram educadores da rede pública na promoção de novos hábitos no âmbito escolar, além de apoiarem a implementação de diversos projetos que promovem uma alimentação equilibrada e prática de atividades físicas.

 

Os pilares da iniciativa estão alinhados aos cinco comportamentos que o movimento Nestlé por Crianças Mais Saudáveis promove:

  • • Alimentação nutritiva e variada
  • • beber mais água
  • • Comer melhor
  • • Curtir as refeições juntos
  •  brincar ativamente

 

Sobre a Nestlé

 

A Nestlé tem mais de 100 anos de atuação no Brasil e segue renovando seu compromisso com a sociedade, como força mobilizadora que contribui para levar nutrição e bem-estar para bilhões de pessoas, criar um ambiente de inclusão e oportunidade para milhares de brasileiros e ser o produtor de alimentos mais sustentável do país. A empresa emprega mais de 30 mil pessoas direta e indiretamente no Brasil e tem 18 unidades industriais em operação localizadas nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Goiás, Rio Grande do Sul e Espírito Santo, além de 12 centros de distribuição e mais de 70 brokers (responsáveis por vendas, promoções, merchandising, armazenamento e distribuição).

 

Comprometida com boas práticas que vão do campo à mesa do consumidor, a companhia conta com milhares de produtores fornecedores participando de programas de qualidade nas cadeias de cacau, café e leite, que garantem uma produção sustentável e que trazem modernidade ao campo. Além disso, mantém iniciativas nas fábricas como minimizar a utilização de água e energia e reduzir as emissões, ações de reflorestamento e inovações contínuas em embalagens cada vez mais sustentáveis. A Nestlé Brasil está presente em 99% dos lares brasileiros.

 

 

Comportamento

Silêncio corporal de crianças: a infância que desaprendeu a se mover

Entendemos o silêncio corporal de crianças como sinônimo de ordem, mas o cérebro infantil não foi desenhado para aprender em imobilidade prolongada. Ao contrário, ele se estrutura na ação

 

Adele Diamond demonstrou que funções executivas, o grande “gerente organizacional do nosso cérebro”, encarregado por gerenciar informações diferentes, entender o momento de parar e recalcular a rota, emergem de circuitos que não operam isoladamente no córtex pré-frontal. A interação entre cerebelo e córtex pré-frontal indica que movimento e cognição compartilham bases neurais. Não há um cérebro “pensante” separado de um corpo “executante”. Há um sistema integrado que aprende fazendo.

 

Essa integração aparece de forma consistente na literatura empírica. Marleen Oudgenoeg-Paz e colaboradores identificam que habilidades motoras nos primeiros anos de vida se associam a desfechos cognitivos posteriores. Em português claro, isso significa que ao explorar o ambiente com o corpo, a criança constrói hipóteses, testa limites e organiza informações.

 

Na mesma linha, Gesa Libertus evidencia que o desenvolvimento motor está relacionado não apenas à cognição, mas também à percepção e à interação social. Já Hui Shi destaca que atividades motoras que exigem adaptação, estratégia e tomada de decisão tendem a favorecer a eficiência cognitiva. Movimento não é bagunça, excesso de energia ou “hiperatividade”, é investimento neural.

 

Diante desse corpo teórico, a infância contemporânea apresenta um paradoxo instigante. Segundo a TIC Kids Online Brasil, crianças e adolescentes passam várias horas diárias em ambientes digitais. E o ponto central vai além do tempo de tela, mas na natureza da experiência. A maior parte dessas interações exige pouco deslocamento, pouca coordenação, pouca variação sensório-motora. O corpo participa pouco. O cérebro recebe muito. Essa assimetria pode ser devastadora.

 

Sem experiências corporais diversificadas, reduz-se a ativação de circuitos que sustentam o desenvolvimento das funções executivas. E, como consequência, surgem dificuldades que costumam ser interpretadas de forma isolada: desatenção, impulsividade, baixa tolerância à frustração. Sintomas que, muitas vezes, são tratados como falhas individuais, quando podem refletir uma arquitetura cotidiana que restringe o agir.

 

Convém reconhecer: não é a tecnologia, por si só, o problema. A literatura é cautelosa ao evitar relações causais simplistas. O ponto mais consistente é outro, o desenvolvimento depende da qualidade das experiências oferecidas à criança. E experiências corporais são insubstituíveis.

 

Quando o cotidiano infantil é organizado majoritariamente por telas, perde-se a oportunidade de integrar percepção, ação e pensamento em um mesmo fluxo. Perde-se a chance de aprender com o erro físico, com o ajuste do corpo, com a negociação espacial e social que nenhuma interface digital consegue reproduzir plenamente.

 

Em um cotidiano cada vez mais mediado por experiências digitais, e, não raro, com restritas oportunidades de ação corporal, é importante reposicionar o movimento como elemento estruturante da aprendizagem. Programas educativos que articulam movimento, autorregulação e habilidades socioemocionais, como práticas de psicomotricidade, dança, artes marciais e jogos em equipe, não configuram apenas atividades complementares, mas contextos de integração funcional entre corpo e cérebro.

 

Ao exigirem coordenação, tomada de decisão, controle inibitório e interação social, essas experiências favorecem o refinamento de circuitos associados às funções executivas, contribuindo para a organização cognitiva de modo coerente com o que a literatura neurodesenvolvimental tem descrito. Elas são oportunidade de integração e desenvolvimento cerebral para avanço cognitivo. Aqui fica a reflexão: se o cérebro aprende com o corpo, o que estamos oferecendo quando mantemos a infância sentada?

 

*Sheron Mendes é bióloga, especialista em neurociência do comportamento e professora dos cursos de pós-graduação em educação na UNINTER.

 

Comportamento

Mães narcisistas: o reflexo distorcido e construção da autoestima

A relação entre mães e filhos é frequentemente idealizada pela sociedade como um vínculo de amor incondicional e acolhimento absoluto

 

No entanto, quando a figura materna apresenta traços marcantes de narcisismo, essa dinâmica familiar sofre uma profunda distorção, deixando marcas silenciosas, porém muito profundas no desenvolvimento emocional da criança. Para a psicanálise, a mãe atua como o primeiro “espelho” do bebê e primeiro lugar de amor.

 

É através do olhar e da resposta materna que a criança começa a reconhecer a si mesma, a dar contorno às suas próprias emoções e a construir o seu valor no mundo. Mas o que acontece quando esse espelho não reflete a criança, e sim a própria mãe?

 

Uma mãe com comportamento narcisista tem uma grande dificuldade em enxergar os filhos como indivíduos próprios, dotados de desejos, opiniões e necessidades. Em vez disso, ela os enxerga como extensões de si mesma. O papel da criança, muitas vezes de forma inconsciente, passa a ser o de alimentar o ego materno.

 

Isso pode ocorrer de duas formas: seja alcançando um sucesso irreal para que a mãe possa se exibir perante os outros, seja mantendo-se totalmente submissa para jamais ofuscar o brilho e o controle que a mãe exige possuir.

 

Nesse cenário de exigências, o desenvolvimento emocional do filho é severamente prejudicado. As emoções genuínas da criança são frequentemente invalidadas, minimizadas ou ignoradas. Se ela demonstra tristeza ou frustração, a mãe pode interpretar isso como uma afronta pessoal ou um ataque, em vez de acolher o sofrimento. Como consequência, a criança aprende desde muito cedo uma lição dolorosa: para receber algum afeto (ou simplesmente para evitar a rejeição), ela precisa esconder quem realmente é.

 

Para sobreviver a esse ambiente de desamparo, a criança cria o que a psicanálise chama de “falso self” (um falso eu). Trata-se de uma máscara de proteção emocional. O filho passa a agir exclusivamente de acordo com o que a mãe espera, abafando suas próprias vontades e sua espontaneidade. Ele se torna um verdadeiro especialista em monitorar o humor materno para evitar conflitos, vivendo em um estado de alerta constante.

 

Esse apagamento afeta diretamente a construção da autoestima. Uma autoestima saudável nasce da experiência de ser amado e aceito pelo que se é, com falhas e virtudes. Quando o amor materno é condicional e focado apenas na utilidade da criança para a imagem da mãe, o filho cresce com uma sensação crônica de inadequação e vazio. Ele carrega a crença silenciosa de que “nunca é bom o bastante”.

 

Na vida adulta, isso pode se traduzir em relacionamentos afetivos abusivos, dificuldade em impor limites, autocrítica implacável e uma busca incessante por aprovação externa. A pessoa continua procurando no mundo o olhar de aceitação que lhe faltou na infância.

 

Reconhecer que se cresceu sob a sombra de uma mãe narcisista é um processo muito doloroso, pois exige enfrentar a dura realidade do vazio emocional vivenciado no passado. Contudo, essa tomada de consciência é o primeiro passo para a libertação. O processo terapêutico oferece um espaço seguro e sem julgamentos para que o indivíduo possa, finalmente, dar voz àquela criança que foi silenciada.

 

Ao elaborar essas feridas na análise, é perfeitamente possível quebrar o ciclo de dor, resgatar a própria identidade e reconstruir a autoestima, aprendendo a se olhar com compaixão e libertando-se definitivamente do reflexo distorcido do passado.

 

* Elizandra Souza é psicanalista, escritora, palestrante e docente com mais de 20 anos de experiência em atendimento clínico e formação de profissionais. Atua com cursos, palestras e atendimentos voltados a psicólogos, psicanalistas, profissionais do Direito e pessoas interessadas em saúde mental, comportamento e relações humanas.

 

É especialista em Psicanálise e Linguagem e em Magistério do Ensino Superior pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a PUC-SP. Possui Mestrado em Educação pela Universidade São Francisco, em Itatiba, e atualmente é doutoranda em Psicologia pela Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales, em Buenos Aires.

 

Ao longo da carreira, tornou-se professora convidada em diversas instituições de ensino pelo Brasil e passou a abordar temas como crime e psicanálise, misoginia, feminicídio, ansiedade, depressão, infância hiperconectada, violência, transtornos emocionais e os impactos da saúde mental nas relações pessoais e profissionais

Comportamento

Crianças endividadas? O alerta silencioso do consumo precoce na era do Pix e dos jogos online

Clariana Barcelos, especialista em educação financeira, alerta para o avanço do consumo digital entre crianças e defende que o problema não é o acesso ao dinheiro, mas a ausência de diálogo e orientação dentro de casa

 

O acesso cada vez mais facilitado ao dinheiro, agora a poucos cliques de distância via Pix, cartões digitais e compras dentro de jogos, está transformando a forma como crianças e adolescentes se relacionam com o consumo. O que antes dependia da mediação direta dos pais, hoje acontece de maneira rápida, silenciosa e, muitas vezes, invisível.

 

Nesse cenário, cresce um fenômeno ainda pouco discutido: o consumo precoce e desassistido, que pode levar crianças a desenvolver comportamentos impulsivos, dificuldade de lidar com frustrações e uma relação pouco consciente com o dinheiro.

 

Para a educadora financeira Clariana Barcelos, o problema não está na tecnologia em si, mas na forma como ela vem sendo incorporada à rotina familiar. “A gente não está falando de crianças com dívidas formais, mas de um comportamento de consumo que começa muito cedo e sem orientação. Isso tem impacto direto na forma como esse indivíduo vai lidar com dinheiro na vida adulta”, explica.

 

Segundo a especialista, a lógica dos jogos online, que estimulam compras rápidas, recompensas imediatas e o uso de moedas virtuais, pode confundir a percepção de valor das crianças. “Quando o dinheiro deixa de ser físico, ele também deixa de ser concreto. Para uma criança, gastar em um clique não tem o mesmo peso de entregar uma nota ou ver o dinheiro acabar”, afirma.

 

Além disso, o uso do Pix e de cartões vinculados às contas dos pais reduz ainda mais a barreira entre desejo e consumo. “Hoje, a criança não precisa esperar, juntar ou escolher. Isso elimina etapas fundamentais do aprendizado financeiro, como planejamento, paciência e tomada de decisão”, diz Clariana.

 

A especialista também chama atenção para o papel das emoções nesse processo. Muitos pais, por falta de tempo ou por culpa, acabam cedendo com mais facilidade aos pedidos. O consumo vira uma forma de compensação emocional e isso é muito perigoso quando se torna um padrão”, alerta.

 

Abaixo, Clariana compartilha dicas práticas para ajudar aos pais na orientação do consumo digital:

 

1. Torne o dinheiro visível
Mesmo no digital, ajude a criança a entender o valor real das compras. Sempre traduza: “isso custa X reais”  e não apenas moedas do jogo.

 

2. Crie combinados claros
Defina regras para compras online, como limites de valor e frequência. O importante é que a criança saiba o que pode e o que não pode.

 

3. Evite o “sim automático”
Nem todo pedido precisa ser atendido. A frustração também faz parte do aprendizado financeiro.

 

4. Inclua a criança nas decisões
Mostre escolhas do dia a dia: “vamos gastar com isso ou guardar para aquilo?”. Isso desenvolve consciência e prioridade.

 

5. Fale sobre dinheiro sem tabu
Quanto mais natural for o tema dentro de casa, maior a chance de a criança desenvolver uma relação saudável com o consumo.

 

Para Clariana, o caminho não está na proibição, mas na construção de uma relação mais consciente com o dinheiro desde cedo. Isso inclui conversas abertas sobre consumo, a participação das crianças em decisões financeiras simples do dia a dia e a criação de combinados claros sobre gastos digitais.

 

A especialista compartilha abaixo os 5 erros mais comuns dos pais na educação financeira digital de seus filhos:

 

1. Achar que “é só um joguinho”
Compras dentro de jogos são consumo real e, muitas vezes, recorrente. Ignorar isso é subestimar o impacto financeiro.

 

2. Liberar o Pix sem supervisão
Facilidade sem orientação acelera o consumo impulsivo e impede o aprendizado sobre limites.

 

3. Não falar sobre dinheiro
O silêncio não protege, só faz com que a criança aprenda sobre consumo com o mercado.

 

4. Usar o consumo como recompensa ou compensação
Presentear para aliviar culpa ou emocionar pode criar uma associação perigosa entre dinheiro e afeto.

 

5. Evitar dizer “não”
Sem frustração, não existe aprendizado financeiro. O “não” também educa.

 

“Educação financeira não é  quanto a criança tem, mas como ela entende o dinheiro. Se a gente não ensina, o mercado ensina e normalmente da pior forma possível”, conclui.

 

Sobre Clariana Barcelos

 

Clariana Barcelos é pedagoga, administradora e empreendedora à frente do Poderoso Cofrinho, projeto referência nacional em educação financeira infantil que já impacta milhares de crianças e famílias no Brasil com livros, cursos, materiais didáticos, projetos para escolas e mentorias.

 

Autora de obras como Meu Poderoso Cofrinho, Minha Mesada Pode Mais e O Valor das Coisas, Clariana combina sua formação acadêmica e mais de 18 anos de experiência no mercado financeiro para tornar a educação sobre dinheiro acessível, prática e lúdica desde os primeiros anos de vida.

 

Além disso, ela atua como palestrante, colunista e influenciadora digital, defendendo uma abordagem transformadora e democrática para o desenvolvimento da inteligência financeira das novas gerações.

 

Sobre a Poderoso Cofrinho:

 

A Poderoso Cofrinho é uma empresa brasileira de educação financeira infantil que tem como missão formar crianças emocional e financeiramente mais conscientes, preparando-as para decisões mais saudáveis ao longo da vida. Fundada por Clariana Barcelos, a marca desenvolve livros, cursos, jogos, materiais pedagógicos e projetos educacionais para famílias, escolas e empresas, utilizando uma linguagem lúdica, acessível e alinhada ao desenvolvimento infantil.

 

Referência no tema no Brasil, a Poderoso Cofrinho atua para democratizar o diálogo sobre dinheiro desde a infância, contribuindo para uma relação mais equilibrada, ética e responsável com as finanças nas próximas gerações.

Comportamento

Estudo revela que 65% das mulheres não se sentem seguras para caminhar a noite sozinha

Análise inédita mostra que insegurança urbana restringe mobilidade, convivência e lazer e coexiste com o maior índice de otimismo já registrado entre brasileiros

 

Para a maioria das mulheres brasileiras, circular sozinha à noite não é um risco calculado. Dados do estudo O Mapa da Felicidade Real no Brasil 2026, conduzido pela pesquisadora da Ciência da Felicidade Renata Rivetti em parceria com o Instituto Ideia, mostram que 65% das mulheres não se sentem seguras para caminhar sozinhas após o anoitecer. Entre os homens, o índice é de 40%, considerado alto para revelar que o problema não é de gênero apenas, mas de cidade.

 

No total, 53% dos brasileiros relatam essa restrição no cotidiano. Um número que, segundo a pesquisa, não se limita à percepção de violência, ele molda escolhas concretas sobre onde ir, com quem, em que horário. A insegurança deixou de ser uma estatística e passou a ser um organizador da rotina urbana.

 

Desconfiança que vem de cima

 

O dado de mobilidade não aparece sozinho. Ele integra um quadro mais amplo de erosão da confiança: 81% dos brasileiros percebem a corrupção como generalizada no governo e 66% nas empresas. Para Renata Rivetti, os dois fenômenos se alimentam. “Bem-estar não depende apenas de fatores individuais. Ele exige condições externas como segurança, confiança, previsibilidade, que permitem às pessoas viver com mais liberdade”, afirma.

 

Quando essas condições faltam de forma sistêmica, o impacto vai além do medo de sair à noite. Afeta a percepção de pertencimento, a disposição para o convívio social e, em última instância, a qualidade dos vínculos que sustentam o bem-estar coletivo.

 

O otimismo que resiste

 

O que a pesquisa revela com igual força é o que acontece apesar desse cenário. Mesmo diante da insegurança cotidiana e baixa confiança institucional, 93% dos brasileiros afirmam ter esperança em dias melhores, sendo 67% de forma plena e 27% ao menos parcialmente.

Não é ingenuidade. É, segundo Rivetti, uma forma ativa de resistência. “O brasileiro desconfia das instituições, mas continua acreditando no futuro. Essa resiliência é real, mas não pode ser confundida com ausência de problemas estruturais que precisam ser enfrentados”, explica.

 

Os números emocionais da pesquisa traduzem essa tensão com precisão: 46% dos entrevistados relataram preocupação frequente no dia anterior à entrevista, 33% apontaram ansiedade como emoção predominante e 29% descreveram o estresse como presença diária.

 

Metodologia

 

O Mapa da Felicidade Real no Brasil 2026 é o primeiro diagnóstico nacional que investiga os fatores que influenciam o bem-estar da população brasileira, incluindo aspectos emocionais, sociais, econômicos e digitais, oferecendo uma leitura aprofundada sobre os impactos da tecnologia na vida cotidiana.

 

O estudo foi conduzido por Renata Rivetti em parceria com o Instituto Ideia. Foram realizadas 1.500 entrevistas em todas as regiões do país, entre 20 de fevereiro e 1º de março de 2026, com 95% de confiança estatística e margem de erro de 2,5 pontos percentuais.

Comportamento

Síndrome do ninho vazio e o ingrediente essencial para uma vida longa

Muitas vezes, quando falamos sobre longevidade, o pensamento corre imediatamente para as farmácias, os exames de rotina ou a contagem de calorias

 

É claro que o corpo precisa de manutenção, mas há um ingrediente essencial para uma vida longa que não se compra em drogaria: o pertencimento. Viver muito e com qualidade é, acima de tudo, ter motivos para acordar e pessoas com quem partilhar o café da manhã. Afinal, a verdadeira arte de envelhecer bem reside na profundidade dos nossos vínculos e na capacidade de manter vivo o nosso legado.

 

Infelizmente, temos assistido a um fenômeno silencioso em nossas casas. A pressa, essa vilã da modernidade, está roubando o tempo da mesa e silenciando o coração da casa. Antigamente, a cozinha era um “santuário”, o lugar onde as receitas eram transmitidas não por papel, mas pela observação e pelo afeto.

 

Quando deixamos de sentar juntos para comer, perdemos muito mais do que o sabor de um tempero caseiro; perdemos a oportunidade de validar a sabedoria de quem já percorreu caminhos que ainda nem sonhamos em trilhar. Receitas de família são patrimônios imateriais que estão se perdendo porque não paramos mais para aprender o segredo de um assado com quem realmente entende do assunto e da vida.

 

Essa desconexão é um terreno fértil para a chamada Síndrome do Ninho Vazio. Quando os filhos partem e a agitação da casa silencia, os pais muitas vezes se deparam com um espelho que reflete apenas a ausência. Esse vazio não é apenas um sentimento; ele impacta severamente a saúde física, psicológica e social.

 

A sensação de que o papel de cuidar e proteger terminou pode levar ao desânimo e à negligência com a própria nutrição. O ser humano é um animal social e, na maturidade, o isolamento é um dos maiores venenos, combatido apenas com a percepção de que ainda se é útil e amado.

 

Inclusive, a Organização Mundial da Saúde (OMS), dentro da “Década do Envelhecimento Saudável”, ressalta que o bem-estar não depende apenas da ausência de doenças, mas da manutenção de habilidades e conexões que permitam à pessoa ser e fazer o que valoriza. Embora não haja um diagnóstico médico específico para a Síndrome do Ninho Vazio, a OMS reconhece que esta é uma pauta delicada que requer atenção cuidadosa.

 

Nesse contexto, a saída dos filhos de casa pode ser um momento de transição significativa para as famílias, pois pode coincidir com outras mudanças, como a aposentadoria e a menopausa, agravando sentimentos de baixa autoestima e até depressão.

 

Precisamos, portanto, resgatar a arte da escuta e entender que a sabedoria não está nos livros, mas nos olhos de quem já atravessou décadas de invernos e primaveras. Escutar uma pessoa mais madura ou uma pessoa idosa é um ato de cuidado profundo e uma forma de combater a invisibilidade que a idade muitas vezes impõe. Ao trazermos nossos mais velhos de volta para o centro das conversas, garantimos que eles continuem inseridos no fluxo da vida, sentindo que sua jornada faz sentido para as novas gerações.

 

Longevidade plena se faz com a alma alimentada por conexões reais. Que possamos desacelerar o relógio para reencontrar o tempo do outro e redescobrir o prazer da partilha. Que as memórias não se percam em cadernos empoeirados, mas ganhem vida nas mãos dos netos. Envelhecer com dignidade é saber que, mesmo com o ninho mudando de forma, o coração continua sendo um lugar de pouso, respeito e continuidade.

 

*Ingrid de Paula Ferreira é nutricionista, com especialização em Nutrição Clínica e Professora de Nutrição no Centro Universitário Internacional – UNINTER.

Comportamento

Redações latino-americanas traçam caminhos mais seguros para jornalistas mulheres

Após o fechamento do respeitado veículo guatemalteco elPeriódico, em maio de 2023 — depois de uma perseguição prolongada contra seu fundador, José Rubén Zamora —, alguns de seus jornalistas decidiram continuar o trabalho que marcou a publicação

 

“Eles tentaram nos silenciar, mas não conseguiram”, disse Gerson Ortiz, o último editor-chefe do elPeriódico, à LatAm Journalism Review (LJR) em julho de 2024. “Eles encerraram o elPeriódico, mas o jornalismo na Guatemala continua vivo.”

 

Ortiz, junto com a então diretora Julia Corado, lançou o eP Investiga em abril de 2024 — um veículo investigativo inspirado no jornalismo ambicioso e crítico de seu antecessor. Contudo, os desafios surgiram de imediato, e os obstáculos foram ainda maiores, pois ambos foram obrigados a codirigir o veículo a partir do exílio.

 

Uma repórter foi agredida por um advogado investigado por suposta fraude fiscal. E o site saiu do ar após um ataque de bots enquanto a equipe cobria a prisão de uma defensora dos direitos humanos no país vizinho, El Salvador.

 

A direção do veículo afirmou que a resposta das autoridades foi insuficiente ou até agravou os danos, expondo o quão pouco preparada estava a pequena equipe para enfrentar tais ameaças.

 

“Como somos um veículo novo, com uma redação enxuta, ainda temos pendências a resolver, como estabelecer protocolos de segurança e definir como reagir em caso de emergência”, contou à LJR uma das editoras, Shirlie Rodríguez.

 

Atenta a isso, a equipe do eP Investiga inscreveu-se para participar do programa “Salvaguardando Vozes Femininas: Aprimorando Estratégias de Segurança com Recorte de Gênero nas Redações”, uma iniciativa de um ano concebida para ajudar veículos a fortalecer suas medidas de segurança e lidar com os riscos específicos enfrentados por jornalistas mulheres. O eP Investiga foi um dos apenas três veículos da América Latina e Caribe selecionados.

 

A group of people in front oEquipe do meio guatemalteco eP Investiga, um dos três veículos da América Latina e do Caribe que fazem parte da iniciativa “Safeguarding Women’s Voices”. (Foto: Cortesia) O programa, administrado pela International Women’s Media Foundation (IWMF) e pela UNESCO, reúne 11 veículos de todo o mundo. Segundo a IWMF, os outros dois veículos latino-americanos preferiram não ter seus nomes divulgados.

 

Os participantes recebem apoio personalizado para desenvolver protocolos de segurança adaptados às ameaças que enfrentam — sejam elas de âmbito nacional ou ligadas à cobertura diária —, explicou à LJR a gerente do programa, Angelica Mayor.

 

A iniciativa começa com avaliações das vulnerabilidades de cada redação e das medidas de proteção já existentes, seguidas de grupos focais com as equipes participantes e colaboradores freelancers, além de treinamentos em segurança física e digital.

 

As necessidades variam bastante. Alguns veículos sofrem intimidação de autoridades públicas; outros lidam com desafios logísticos e jurídicos de operar além-fronteiras, como é o caso das redações no exílio, a exemplo do eP Investiga.

 

“Quando falamos de jornalistas no exílio, há muita compartimentalização, pois trabalham com colegas que ainda estão no país, enquanto outros estão fora, deixando a redação em situação bem precária”, disse Mayor.

 

Apesar dessas particularidades, as conversas iniciais permitiram à equipe do programa identificar padrões globais. Um deles envolve ameaças de agentes estatais, mais especificamente a vigilância sobre as redações. Grupos criminosos também vigiam, agora utilizando drones, assim como fazem os agentes estatais.

 

As redações também enfrentam assassinatos, extorsão e exposição a áreas de conflitos (cobertura de tiroteios, ataques etc.). No campo digital, contou Mayor, há inúmeros casos de phishing (alguns mais sofisticados que outros), ataques a sites e redes sociais, além de vigilância online. Casos envolvendo o spyware Pegasus e outros softwares estão entre as maiores preocupações.

 

“Muitas redações não têm uma estrutura de comunicação segura”, explicou Mayor, incluindo aí a proteção do contato com fontes. “Portanto, estamos trabalhando para garantir que usem autenticação de dois fatores, que reconheçam quando dispositivos pessoais são usados para o trabalho e como isso pode comprometer pessoas devido às informações armazenadas nesses dispositivos.”

 

Alguns veículos têm seus endereços físicos vinculados ao do jornalista ou editor, o que aumenta o risco de doxxing e até de violência física. “Também há o assédio online como tática para desencorajar a cobertura e isso atinge de forma predominante — ou desproporcional — jornalistas mulheres e profissionais de grupos marginalizados, o que desestimula ainda mais o trabalho jornalístico”, afirmou Mayor.

 

De fato, um estudo global de 2021 apontou que 73 % das jornalistas entrevistadas relataram ter sofrido assédio online em algum momento por causa de seu trabalho. Além disso, os ataques foram mais intensos contra mulheres que se identificavam como indígenas ou negras.

 

Esses casos levam à autocensura e até ao abandono da profissão por parte de mulheres. É justamente por isso que a iniciativa busca protegê-las. “O programa contempla todos os gêneros, mas sempre aplicamos um olhar sensível a gênero porque […] nossas pesquisas mostram que jornalistas mulheres e não bináries recebem mais ameaças por conta de sua identidade”, disse Mayor.

 

Rodríguez concorda; ela também observa que os ataques direcionados às mulheres da equipe tendem a ser sexualizados e misóginos — agressões que acabam levando ao abandono do jornalismo. Rodríguez cita o caso de violência física contra sua colega como particularmente “chocante”. Além da agressão em si, preocupava-os a falta de clareza, dentro da redação, sobre quais protocolos seguir e onde buscar assistência jurídica.

 

Algo semelhante ocorreu com um ataque digital, que deixou o site fora do ar por pelo menos seis horas. A equipe técnica detectou “atividade incomum de bots” originada dos Estados Unidos e de El Salvador — justamente no momento em que cobriam a detenção da defensora de direitos humanos Ruth López em El Salvador.

 

“Os riscos são maiores para as mulheres. Os ataques são dirigidos violentamente à pessoa delas — como indivíduos”, afirmou Rodríguez. “Com esta iniciativa, esperamos estar mais preparadas para lidar com esses problemas.”