A saúde sexual também está nos ossos

Por Maximino Brügger Perez

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03.09.2026 às 02h43m

Na menopausa, falar de libido, desconforto e qualidade de vida sem olhar para a saúde óssea é deixar parte importante da história de fora

 

Existe uma pergunta que ainda fazemos pouco às mulheres: como você está vivendo essa fase da sua vida? Em geral, quando falamos sobre saúde sexual, pensamos em desejo, libido, desempenho ou relacionamento. Quando falamos sobre menopausa, pensamos em ondas de calor, alterações do sono, ressecamento vaginal e mudanças hormonais. E, quando falamos sobre osteoporose, pensamos em ossos e fraturas.

 

Como se fossem assuntos separados. Não são.

 

O organismo não funciona em compartimentos. A mesma mudança hormonal que pode repercutir sobre a sexualidade também pode afetar músculos, composição corporal, cérebro e tecido ósseo. É por isso que discutir saúde sexual é, necessariamente, discutir saúde integral.

 

Essa conexão fica especialmente evidente na menopausa. A queda do estrogênio pode estar associada a sintomas que interferem na sexualidade, como secura vaginal e desconforto, além de alterações que podem comprometer autoestima, intimidade e qualidade de vida. Ao mesmo tempo, a redução desse hormônio altera o processo de remodelação óssea e pode acelerar a perda de massa óssea, especialmente nos primeiros anos após a menopausa.

São manifestações diferentes de uma mesma transformação biológica.

 

E talvez esteja justamente aí uma das maiores oportunidades de prevenção.

 

O osso não dói quando começa a desaparecer

 

A osteoporose tem uma característica que torna esse cuidado ainda mais importante: ela frequentemente é silenciosa.

Uma mulher pode perder massa óssea durante anos sem sentir dor ou perceber qualquer sinal específico. Muitas vezes, a primeira manifestação da doença é uma fratura por fragilidade. Isso muda completamente a lógica do cuidado.

 

Não deveríamos esperar uma fratura para começar a conversar sobre saúde óssea, assim como não deveríamos esperar que uma mulher deixe de ter uma vida sexual satisfatória para perguntar se há algo interferindo em seu desejo, conforto ou intimidade.

 

A menopausa pode ser uma oportunidade para fazer essa avaliação de maneira mais ampla. Não porque toda mulher na menopausa terá osteoporose, não terá. Mas porque a transição menopausal representa uma mudança hormonal importante e merece uma avaliação individualizada dos fatores de risco.

 

Uma consulta pode começar com uma queixa aparentemente específica, “minha libido mudou”, “estou sentindo desconforto”, “não tenho mais o mesmo desejo”,  e abrir espaço para uma conversa muito maior sobre sono, humor, atividade física, alimentação, saúde cardiovascular, músculos e ossos. Esse é o cuidado que precisamos oferecer.

 

Sexualidade não é apenas sexo

 

Ainda existe uma tendência de tratar a sexualidade como algo secundário, quase opcional, principalmente à medida que a mulher envelhece. Mas sexualidade também envolve autoestima, intimidade, desejo, conforto, relacionamento e percepção de bem-estar.

 

Quando uma mulher sente dor durante uma relação sexual, por exemplo, não estamos falando apenas de um sintoma localizado. Aquela experiência pode afetar sua autoestima, sua relação afetiva e sua disposição para a intimidade.

 

Da mesma maneira, alterações do sono, do humor, da disposição e da percepção corporal podem interferir na sexualidade mesmo quando não existe um problema exclusivamente sexual. Por isso, uma queixa sexual merece ser ouvida. Não deve ser automaticamente atribuída ao envelhecimento, muito menos naturalizada com a ideia de que “é assim mesmo depois de certa idade”. Envelhecer é inevitável. Sofrer sem necessidade não deveria ser.

 

E os homens?

 

Essa conversa também precisa incluir os homens, embora sem transformar processos diferentes em equivalentes. Os hormônios sexuais também participam da manutenção da saúde óssea masculina, e alterações hormonais podem ocorrer ao longo do envelhecimento. Entretanto, o envelhecimento masculino não deve ser tratado como uma versão da menopausa feminina.

 

Nos homens, uma queixa de disfunção sexual pode, em determinadas circunstâncias, justificar investigação da testosterona, especialmente quando aparece associada a outros sinais ou fatores de risco, como perda óssea ou fratura por baixo impacto.

 

Mas há uma diferença importante entre um sinal que merece investigação e um diagnóstico. Disfunção sexual, isoladamente, não confirma deficiência de testosterona nem significa que todos os homens devam fazer rastreamento hormonal.

Mais uma vez, a medicina precisa olhar para o indivíduo, e não apenas para uma idade ou um sintoma.

 

O cuidado com os ossos começa muito antes da menopausa

 

Talvez um dos maiores erros seja pensar na saúde óssea apenas quando os hormônios começam a cair. A massa óssea é construída ao longo da vida. Chegar à menopausa com uma boa reserva óssea e manter hábitos que favoreçam sua preservação são parte importante da prevenção.

 

Alimentação adequada, com ingestão suficiente de cálcio e proteínas, atividade física regular, exercícios de força e resistência e, quando indicados, exercícios com impacto ajudam a preservar a saúde musculoesquelética. Não fumar, evitar o consumo excessivo de álcool e manter níveis adequados de vitamina D também são medidas importantes.

 

Mas prevenção não significa uma receita igual para todas as mulheres. A necessidade de investigação e tratamento depende de fatores individuais, como idade, menopausa, histórico pessoal e familiar de fraturas, uso de determinados medicamentos e doenças que podem interferir no metabolismo ósseo.

 

Por isso, não existe uma idade mágica que determine quando todas as pessoas devem investigar a saúde dos ossos.

Existe, sim, o momento adequado para cada pessoa conversar com seu médico.

 

E quando já existe osteoporose?

 

Existe ainda um silêncio particularmente desconfortável quando juntamos osteoporose e sexualidade. Receber um diagnóstico de osteoporose não significa deixar de ter vida sexual.

 

Também não existem, atualmente, diretrizes específicas das principais sociedades de osteoporose dedicadas exclusivamente à prática sexual nesses pacientes. Por isso, precisamos ter cuidado para não transformar recomendações individuais em proibições gerais.

 

Depois de uma fratura por fragilidade, a retomada da atividade sexual deve ser gradual e considerar a recuperação, a presença de dor e as características de cada paciente.

 

Em pessoas com fratura vertebral recente ou osteoporose grave, determinados movimentos de flexão ou torção brusca e sustentada da coluna podem exigir adaptações. Nesses casos, uma orientação individualizada, inclusive com fisioterapia quando indicada, pode ajudar a modificar movimentos e posições de maneira mais segura. O objetivo não é retirar autonomia ou prazer da vida da pessoa. É permitir que ela continue vivendo sua sexualidade com segurança.

 

O que precisamos mudar é a pergunta

 

O Dia Mundial da Saúde Sexual, celebrado em 4 de setembro, é uma oportunidade para ampliarmos essa conversa. Saúde sexual não deveria ser um assunto procurado apenas diante de uma disfunção. E saúde óssea não deveria entrar em pauta somente depois de uma fratura.

 

Precisamos antecipar o cuidado. Quando uma mulher chega à menopausa preocupada com sua libido, secura vaginal ou desconforto, talvez aquela seja também uma oportunidade para perguntar sobre atividade física, alimentação, sono, histórico de fraturas e outros fatores que interferem em sua saúde.

 

Não significa transformar toda consulta em uma lista interminável de exames. Significa enxergar a mulher para além da queixa que a levou ao consultório. Essa é, para mim, a essência do cuidado integral.

 

A menopausa não é apenas o momento em que a produção de determinados hormônios diminui. É uma fase de transição que pode repercutir em diferentes dimensões da vida e que merece ser acompanhada com informação, prevenção e, quando necessário, tratamento.

 

Por isso, quando uma mulher fala sobre sua sexualidade, precisamos ouvir também o que seu corpo inteiro está dizendo.

Porque cuidar da saúde sexual não é cuidar apenas do sexo. É cuidar da mulher. E, nessa história, até os ossos têm algo a dizer.

 

* Por Adriana Orcesi

 

Sobre a autora

 

Dra. Adriana Orcesi Pedro (CRM-SP 65.555 | RQE 97.826) é professora livre-docente em Ginecologia pela Unicamp e vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Osteoporose da Febrasgo. Integra o Regional Advisory Board da International Osteoporosis Foundation (IOF), o Comitê de Ginecologia da Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo (ABRASSO) e o Comitê de Climatério da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH). É também Menopause Society Certified Practitioner (MSCP) pela The Menopause Society e atua na Clínica Adriana Orcesi.

 

Sobre a ABRASSO

 

A Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo (ABRASSO) é uma sociedade médica dedicada à promoção do conhecimento, da prevenção, do diagnóstico e do tratamento das doenças que afetam a saúde óssea e o metabolismo. Reúne profissionais de diferentes especialidades envolvidos no cuidado e na pesquisa em osteoporose e outras condições osteometabólicas.

 

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