Por que o recesso escolar pode ser decisivo para o bem-estar e a aprendizagem de crianças e adolescentes

Por Maximino Brügger Perez

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16.07.2026 às 12h31m

Educadores do Mão Amiga defendem que a pausa no calendário letivo vai além do descanso; pausa ajuda a reorganizar emoções, fortalecer vínculos familiares e ampliar repertórios fora da sala de aula

 

O mês de julho costuma trazer uma cena conhecida para muitas famílias: de um lado, crianças e adolescentes contando os dias para as férias; de outro, pais e responsáveis tentando conciliar trabalho, rotina da casa e a expectativa de oferecer férias “bem aproveitadas”. No meio dessa equação, uma pergunta aparece com frequência: afinal, o que faz das férias um período realmente importante para o desenvolvimento dos estudantes?

 

Para educadores, a resposta passa menos por viagens ou atividades planejadas e mais por algo simples — e difícil de sustentar na correria do ano: tempo para desacelerar, conviver e reorganizar a rotina emocional depois de um semestre intenso. No Mão Amiga VIS Foundation Brasil, colégio filantrópico localizado em Itapecerica da Serra, o recesso é entendido como parte do desenvolvimento dos estudantes, influenciando a forma como retomam a aprendizagem, a convivência e o restante do ano letivo.

 

“Durante o semestre, a criança lida com provas, trabalhos, adaptação, novos professores, relações sociais e frustrações. Tudo isso exige muito dela. As férias oferecem uma pausa para ajustar as emoções e recuperar a energia. Esse intervalo não interrompe a aprendizagem, pelo contrário, ajuda a elaborar o que foi vivido, porque aprender também depende do bem-estar emocional”, afirma Aline Araújo, professora do Fundamental I do Mão Amiga VIS Foundation.

 

Essa percepção parte da observação cotidiana de crianças e adolescentes que chegam ao fim do semestre mais cansados, dispersos ou emocionalmente sobrecarregados. Entre os adolescentes, esse processo costuma ser ainda mais intenso, já que a fase é marcada por mudanças, busca por pertencimento e pressões acadêmicas. As férias oferecem um tempo para processar as experiências dos meses anteriores e, muitas vezes, o que a criança precisa não é de mais estímulo, mas justamente de uma chance de diminuir o ritmo.

 

Para Igor Alves Garcia, Tutor do Fundamental II no Mão Amiga, “a escola é uma das maiores responsabilidades da vida deles. O recesso chega como esse respiro para acordar um pouco mais tarde, ficar mais tempo em casa, ouvir música, ver um filme, conviver com a família e voltar depois com mais fôlego”. Ele ainda diz que “muitas vezes, o que a criança precisa não é de mais estímulo, mas justamente de uma chance de diminuir o ritmo”.

 

Segundo os educadores, esse intervalo também ajuda a explicar por que muitos alunos retornam às aulas mais disponíveis para se engajar nas propostas pedagógicas e nas relações dentro da escola. O descanso, nesse contexto, não aparece como um “tempo vazio”, mas como parte do próprio processo de desenvolvimento.

 

Menos agenda, mais presença

 

Se as férias costumam gerar ansiedade nas famílias, isso também tem relação com a pressão para “dar conta” do período. Na avaliação dos professores, é comum que pais e responsáveis associem um bom recesso a viagens, passeios ou uma programação intensa. Mas, do ponto de vista das crianças, o que costuma ganhar é outra coisa. “Sempre aconselhamos os pais de que as férias não precisam ser perfeitas. O que mais marca a infância, muitas vezes, são as experiências simples de convivência”, afirma Aline.

 

Na volta às aulas, ela diz ouvir relatos que reforçam essa percepção: a ida à casa da avó, o pastel na feira, uma refeição feita em família, um filme assistido junto, uma brincadeira na calçada, uma conversa sem pressa.

 

Férias não é sinônimo de programações caras, mas dos vínculos e do tempo de qualidade construídos nesse período. Para muitos alunos, essa é a chance de estar mais perto da família em uma rotina que, no restante do ano, costuma ser apertada. “Tem criança que sai de casa muito cedo e não consegue tomar um café da manhã com os pais durante o ano letivo. Às vezes, o recesso permite viver coisas que parecem pequenas, mas têm um peso enorme: passar mais tempo com a família. Isso constrói vínculos”, observa Garcia.

 

Essa percepção é especialmente importante em contextos em que pais e responsáveis continuam trabalhando durante julho e, por isso, carregam culpa por não conseguirem acompanhar os filhos como gostariam. “Nem sempre vai ser possível passar o dia inteiro com a criança, e tudo bem. O ponto é que, no tempo disponível, ela possa se sentir realmente acolhida”, diz Aline.

 

No fundo, o que os educadores defendem é uma mudança de perspectiva sobre o recesso escolar. Em vez de enxergar as férias apenas como uma interrupção no calendário ou como um problema logístico para as famílias, eles propõem olhar para esse período como uma dimensão importante da própria formação de crianças e adolescentes. Garcia reforça que, no fim das contas, o recesso é também um lembrete de algo essencial. “Criança precisa ter oportunidade de ser criança. Nem tudo nas férias precisa virar meta, atividade ou desempenho. Às vezes, o mais importante é justamente aquilo que não parece produtivo aos olhos do adulto, mas que, para a infância, é fundamental.”

 

Sobre o Mão Amiga VIS Foundation Brasil

 

Ativo há 20 anos, o Mão Amiga VIS Foundation é uma Organização da Sociedade Civil (OSC), que atua na educação de crianças e adolescentes, do ensino infantil ao fundamental, no município de Itapecerica da Serra, na região metropolitana da cidade de São Paulo, um local de grande vulnerabilidade social. Atualmente, a equipe do colégio leciona para mais de 700 alunos, oferecendo educação de qualidade, atividades de cultura, esporte e desenvolvimento social para mais de 500 famílias da região.

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